domingo, 17 de junho de 2007

Comentário de Jailson sobre a entrevista com Leila Míccolis:

Minha linda poetisa,

Tua entrevista é absolutamente perfeita.
Na forma, no ritmo, no avançar aos poucos, introduzindo o leitor no tema, e não ao tema, neste caso. Produz um mergulho gradativo.
Não soa, não parece, não faz pensar, em nenhum momento, em uma primeira entrevista.
Muito ao contrário, parece trabalho de gente grande, de entrevistador de gabarito em programa da BBC londrina.

De novo, o prêmio do objetivo alcançado, a sensação do trabalho bem feito, merecidamente.
Clean, revelando a entrevistada aos poucos, formando o personagem esférico, de quem se sabe muito, mas de quem nunca se sabe tudo.
Leila Míccolis foi sendo desvelada e construida ao longo da entrevista, de forma a que se gerasse a impressão de conhecê-la como se a tivéssemos encontrado pessoalmente, em uma conversa franca e honesta, em uma situação social de intimidade respeitosa.

Parabéns pela garra, pelo empenho em conseguir o muito difícil, o distante. Parabéns.
Nossa rica língua não tem palavras mais ricas que "parabéns" para expressar esses cumprimentos de louvor e apreço.
Parabéns !


Abaixo, um poema que prezo muito.
Custou-me muito sofrimento escrevê-lo como contraponto de meus sentimentos, muito negativos à época.
Mas o próprio mergulho poético me permitiu superar o estado emocional. Poema terapêutico.
Quando a Ana, minha sobrinha, foi para os EUA fazer intercâmbio, eu o reescrevi e o dediquei a ela pelo aniversário.
Espero que ainda seja atual, para enriquecer mais teu blog.



ECO PRIMEVO

PARA ANA, QUE TEM HOJE MAIS UM DIA.

Jailson F. Sanchez



Cada palavra que escrevo puxa uma outra, como um comboio que atravessa a ponte.
E a ponte traz poente, que traz ocaso,
e a associação criada livremente traz o fim, o nada, o acaso,
a serpente, a mulher, o cântico dos cânticos.

E cada novo som produz um eco,
o mesmo som que se transforma em outro como a Eco,
desamada por Narciso e que, muda, reconstrói-se a cada toque
e é ela própria narcísica na auto-projeção.

Então vejo uma gota d'água e todo o universo que contém.
Vejo os dentes do meu cão, de madrugada, e vejo as estrelas também,
vejo o som de uma rima elaborada, cruzada, e digo amém,
reconhecendo a eterna encruzilhada entre o aquém e o além.

Eu sou.
Através de cada rima, de cada som, eu sou !
E muito depois que morrer a língua em que foram escritos estes versos, como queria Pessoa,
ainda ecoarão in-fi-ni-te-si-mal-men-te as vibrações destas palavras em cada partícula do cosmos.

Um som terá se transformado em uma perturbação,
que incorporada a todos os movimentos, fá-los-á diferentes do que eram.

E com o passar das eras este som será a origem e o motivo de algo.
Algo que pode, eventualmente, ser um novo carrossel do eterno retorno,
onde todos os ecos são ecos e cada som é um novo som.

Eco-som !
Ergo sum !

Mergulho mais uma vez nas profundezas do mármore que gera o eco.
Que mármore é esse ? Onde sua estrutura ?
O que reconstrói o som e forma o eco ?
No fundo do mármore profundo não há mais mármore.
Há apenas sons.
O som não ecoa no mármore, o som ecoa no som.
O devir é o produto dialético dos sons que fazem eco entre si.
O existir é um som síntese.

E, como na vida biológica, o ser é o resultado do encontro.

Anti-entropicamente, o enunciado da terceira lei da termodinâmica,
ao ser proferido, desfez o caos e produziu novos encontros.

Essa é a poesia da SCIENTIA.

A poesia que vai além do ritmo,
que encontra, ela própria - no encontro dos sons -
a origem última de tudo o que existe.

E assim se revela a beleza do ser.

La parole, the word, la parola, la palabra,
todo es igual y todo es distinto.
All the sounds together and around out,
Tutte le cose con la stessa melodia,
Tous les langages remplis d'un propos.

Mein Weltanschauung !

O belo através da fala masculina que constrói no receptáculo feminino do cosmos.

L'Opera Prima !

Bravo ! Bravo ! Bravo !

Benditos sejam todos os tambores da aurora dos tempos ...


31/Mar/1999