sábado, 30 de junho de 2007

O HOMEM VELHO
Caetano Veloso

O homem velho deixa a vida e morte para trás
Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais
O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais
O homem velho é o rei dos animais

A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol
As linhas do destino nas mãos a mão apagou
Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock’n’roll
As coisas migram e ele serve de farol

A carne, a arte arde, a tarde cai
No abismo das esquinas
A brisa leve traz o olor fulgaz
Do sexo das meninas

Luz fria, seus cabelos têm tristeza de néon
Belezas, dores e alegrias passam sem um som
Eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho de Hebron
E ao seu olhar tudo que é cor muda de tom

Os filhos, filmes, ditos, livros como um vendaval
Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal

sexta-feira, 29 de junho de 2007

ALMA TRANSPARENTE

A luz que paira
Em tua alma indefinida
Incontida essência
Emanada em cores
Brilha imensa
Incontáveis vezes
Encantadoramente
Serena e selvagem
Cristalinamente
Colorida
Expressivamente
Brilhante
Adorno imperfeito
De teus feitos!
Enfeitas-te de cores
Festejando amores
Mirando alhures
Incitando prismas
De formas diversas
Matizando entornos
De tuas expressões
Gigantescamente
Arrebatadoras
De porções maiores
Ora realçadas
De tua beleza
De alma transparente.

© Márcia Sanchez Luz

*Do Livro "No Verde dos Teus Olhos" - Editora Protexto, PR - 2007

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Este poema de Sérgio Britto, tão magnificamente interpretado pelos Titãs, traduz o que sinto com relação à vida...

EPITÁFIO

Sérgio Britto

Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais
Até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado as pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado a vida como ela é
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr

sábado, 23 de junho de 2007

Poema de Gilberto Mendonça Teles para Leila Míccolis



Para Leila Míccolis

Gilberto Mendonça Teles

Leila, querida,
querida Leila,
na minha vida
um dia hei-la

que aparece inte-
ligente e prosa,
com seu requinte
de cravo e rosa,

com os seus blocos
e com seus flocos
de sim, de não

na pena aflita
por ver a escrita
na contramão.

Rio, 14.6.2007

(publicado com a autorização de Leila Míccolis)

quinta-feira, 21 de junho de 2007

PROFANO

Profano teu corpo
Como em mim ironizo teu gozo
Regozijo-me e te desconvido
A partilhar meu prazer.

Bendigo meu corpo
Como em ti assolei-me
Entreguei-te, vendada
O que vedado estava.

Bendito momento
Em que acordo, assustada
E descubro meu corpo
Inteiro, sem mágoas.

© Márcia Sanchez Luz


*Do Livro "No Verde dos Teus Olhos" - Editora Protexto, PR - 2007

domingo, 17 de junho de 2007

Comentário de Jailson sobre a entrevista com Leila Míccolis:

Minha linda poetisa,

Tua entrevista é absolutamente perfeita.
Na forma, no ritmo, no avançar aos poucos, introduzindo o leitor no tema, e não ao tema, neste caso. Produz um mergulho gradativo.
Não soa, não parece, não faz pensar, em nenhum momento, em uma primeira entrevista.
Muito ao contrário, parece trabalho de gente grande, de entrevistador de gabarito em programa da BBC londrina.

De novo, o prêmio do objetivo alcançado, a sensação do trabalho bem feito, merecidamente.
Clean, revelando a entrevistada aos poucos, formando o personagem esférico, de quem se sabe muito, mas de quem nunca se sabe tudo.
Leila Míccolis foi sendo desvelada e construida ao longo da entrevista, de forma a que se gerasse a impressão de conhecê-la como se a tivéssemos encontrado pessoalmente, em uma conversa franca e honesta, em uma situação social de intimidade respeitosa.

Parabéns pela garra, pelo empenho em conseguir o muito difícil, o distante. Parabéns.
Nossa rica língua não tem palavras mais ricas que "parabéns" para expressar esses cumprimentos de louvor e apreço.
Parabéns !


Abaixo, um poema que prezo muito.
Custou-me muito sofrimento escrevê-lo como contraponto de meus sentimentos, muito negativos à época.
Mas o próprio mergulho poético me permitiu superar o estado emocional. Poema terapêutico.
Quando a Ana, minha sobrinha, foi para os EUA fazer intercâmbio, eu o reescrevi e o dediquei a ela pelo aniversário.
Espero que ainda seja atual, para enriquecer mais teu blog.



ECO PRIMEVO

PARA ANA, QUE TEM HOJE MAIS UM DIA.

Jailson F. Sanchez



Cada palavra que escrevo puxa uma outra, como um comboio que atravessa a ponte.
E a ponte traz poente, que traz ocaso,
e a associação criada livremente traz o fim, o nada, o acaso,
a serpente, a mulher, o cântico dos cânticos.

E cada novo som produz um eco,
o mesmo som que se transforma em outro como a Eco,
desamada por Narciso e que, muda, reconstrói-se a cada toque
e é ela própria narcísica na auto-projeção.

Então vejo uma gota d'água e todo o universo que contém.
Vejo os dentes do meu cão, de madrugada, e vejo as estrelas também,
vejo o som de uma rima elaborada, cruzada, e digo amém,
reconhecendo a eterna encruzilhada entre o aquém e o além.

Eu sou.
Através de cada rima, de cada som, eu sou !
E muito depois que morrer a língua em que foram escritos estes versos, como queria Pessoa,
ainda ecoarão in-fi-ni-te-si-mal-men-te as vibrações destas palavras em cada partícula do cosmos.

Um som terá se transformado em uma perturbação,
que incorporada a todos os movimentos, fá-los-á diferentes do que eram.

E com o passar das eras este som será a origem e o motivo de algo.
Algo que pode, eventualmente, ser um novo carrossel do eterno retorno,
onde todos os ecos são ecos e cada som é um novo som.

Eco-som !
Ergo sum !

Mergulho mais uma vez nas profundezas do mármore que gera o eco.
Que mármore é esse ? Onde sua estrutura ?
O que reconstrói o som e forma o eco ?
No fundo do mármore profundo não há mais mármore.
Há apenas sons.
O som não ecoa no mármore, o som ecoa no som.
O devir é o produto dialético dos sons que fazem eco entre si.
O existir é um som síntese.

E, como na vida biológica, o ser é o resultado do encontro.

Anti-entropicamente, o enunciado da terceira lei da termodinâmica,
ao ser proferido, desfez o caos e produziu novos encontros.

Essa é a poesia da SCIENTIA.

A poesia que vai além do ritmo,
que encontra, ela própria - no encontro dos sons -
a origem última de tudo o que existe.

E assim se revela a beleza do ser.

La parole, the word, la parola, la palabra,
todo es igual y todo es distinto.
All the sounds together and around out,
Tutte le cose con la stessa melodia,
Tous les langages remplis d'un propos.

Mein Weltanschauung !

O belo através da fala masculina que constrói no receptáculo feminino do cosmos.

L'Opera Prima !

Bravo ! Bravo ! Bravo !

Benditos sejam todos os tambores da aurora dos tempos ...


31/Mar/1999

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Entrevista com Leila Míccolis

(por Márcia Sanchez Luz)



Nutro por Leila um carinho especial, o que se deve a inúmeros fatores. Não posso deixar de mencionar sua generosidade em nosso primeiro contato: no final de 2006 mandei um e-mail para a Editora Blocos Online, dizendo que eu era poeta, mas que sempre preferi ficar no anonimato; é claro que, naquele momento, já havia mudado de opinião! Entretanto, não tinha a mais vaga idéia das conseqüências daquela minha atitude. Depois de uns dias, recebi um e-mail de Leila Míccolis, pedindo que lhe enviasse alguns poemas, os quais foram logo publicados.


Leila Míccolis, escritora brasileira da geração poética de 1970, prosadora, escritora de cinema, teatro e televisão, Mestre em Ciência da Literatura/Teoria Literária pela UFRJ, trinta livros editados em poesia e prosa, obras publicadas na França, México, Colômbia, África, Estados Unidos e Portugal, teatróloga, roteirista de cinema e escritora de telenovelas, ainda co-edita, com Urhacy Faustino, o portal Blocos Online.


Sim, capaz de todos estes e outros feitos, e com toda esta carga de trabalho, Leila ainda encontra forças para ler e-mails, mesmo que de desconhecidos!


Nasceu, então, uma amizade sincera e deliciosa! Leila é a Pequena Notável, não só da Literatura, mas da vida. Dona de uma honestidade que pode até machucar, foi conquistando meu coração – não sei lidar com mentiras! Prefiro a verdade que machuca à mentira que me desacata, como também transpareço meus sentimentos sem precisar dizer uma única palavra; basta meu olhar. E acredito que, se todos se dessem a chance de lidar simplesmente com a verdade, tudo na vida ficaria mais fácil.
Em Leila tudo é intenso, nada fica sem acontecer quando passa por ela.



M.S.L.: Leila, seu perfil é o de uma mulher desbravadora, contestadora, crítica. Em quais de suas obras isto está mais evidente? Ou você evidencia seu modo de ser e ver o mundo em tudo o que cria?

L.M.: Sou dessas escritoras que não separam vida e obra, embora, nesta última, haja grandes doses de ficção. Sempre me interessei pela crítica e questionamento das “verdades imutáveis”, dos papéis sociais, dos padrões de comportamento, da hipocrisia e de uma realidade feita apenas de ilusões e aparências e esses temas recorrentes acabam por perpassar também minha literatura.


M.S.L.: Sei que escreve desde os três anos de idade. Àquela época, qual era o “motor propulsor” de suas criações?

L.M.: O “motor propulsor” foi humano: minha mãe, que era diretora de escola primária, pintora e escritora, desde cedo me incentivou, contando histórias, dando-me livros infantis, dialogando comigo. Devo a ela ter-me sinalizado essa maravilhosa trilha e me guiado através dessa estrada.


M.S.L.: Como foi criar em tempos de Ditadura Militar? De que forma seus poemas refletiam denúncias contra o governo?

L.M.: Costumo dizer que meu tipo de literatura não conquista amigos com facilidade, porque minha ironia poética incomoda, mesmo que faça sorrir... Então, antes, durante e depois da Ditadura ela sempre foi aceita com reservas, por ser do tipo transgressora. Os poetas da Geração 70, na época da Ditadura, devido à censura declarada, tornaram-se metafóricos ou eram considerados “desbundados”, o que para muitos soava como sinônimo de alienação, quando, em verdade, tratava-se de uma postura estética deliberada de resistência à ação repressora e repressiva. Não fui por nenhum desses caminhos, continuei no meu, que era mais voltado a debater as convenções sociais que massacram e robotizam as pessoas, inclusive sexualmente. E o mais interessante é que a sexualidade era tão ou mais reprimida e censurada quanto a temática política. A caça aos palavrões e às palavras que eles consideravam ofensivas à moral e aos bons costumes chegava a ponto de, uma vez, o Suplemento de Minas pedir para eu substituir a palavra “sexo” por uma outra mais leve...
Tenho diversos poemas claramente dirigidos ao regime de exceção (ainda mais que, na época, eu estava na Faculdade de Direito, e era impossível ignorar os amigos do CACO sendo mortos ou desaparecendo todos os dias); porém como o que minha poesia discutia e discute, insisto, é a microfísica do poder, existente em qualquer tempo e em qualquer regime político, questionar o poder dominante, na época, era apenas mais um item adicionado à minha imensa lista de outros “podres poderes” autoritários.


M.S.L.: Em geral, a criação se dá a partir da crítica, seja ela consciente ou não. Além da Ditadura Militar, que outras ditaduras produzem em você a necessidade de criar?

L.M.: Não sei se a partir da crítica, mas da consciência crítica, no meu caso (se a crítica não chega a ser consciente, não há como ela expressar-se). Há alguns anos comecei a perceber que minha obra se dividia em ciclos: o familiar, o infantil, o cibernético, o ecológico, o esotérico, o erótico, o GLS, o etílico, o lírico, o “em poucas palavras”, entre outros. Em cada um deles falo das manipulações que nos impingem, tão sutis e já tão enraizadas em nós, que nem as percebemos muitas vezes.


M.S.L.: Em sua trajetória pessoal, encontrou traidores?

L.M.: Encontrei, ainda bem: creio que foi Paulo Coelho no Diário de um Mago que disse que, se não temos um inimigo, acabamos inventando-o... Então, neste sentido, sou grata a eles, por terem sido professores de um dificílimo aprendizado que, sem a ajuda deles, seria impossível enfrentar, entender e avançar.


M.S.L.: Leila, como traçar um paralelo entre a obra “Calabar – O Elogio da Traição”, de Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra, e a obra “Calabar” de Ledo Ivo?

L.M.: Calabar de Chico e Ruy, como o próprio nome sugere, faz um elogio à traição de Calabar, um militar corajoso que exerceu sua liberdade de opção ao lutar pela colonização holandesa – menos feroz, inclusive economicamente – em vez da portuguesa. É uma peça teatral baseada em fatos históricos. Já Calabar, de Lêdo Ivo, é um poema dramático: nele o plano histórico convive com o mítico na narrativa literária e não há a defesa de Calabar. O julgamento é outro: a de um país que o julgou como traidor, mas que continua traindo – até hoje – os anseios de fartura e felicidade do seu povo. De comum ambos falam de perseguição e de falta de liberdade de expressão, embora de modos totalmente diferentes: Calabar de Chico e Ruy vive no seu tempo e é uma figura que move os conflitos de forma centrípeta. No poema dramático de Lêdo, a ação se passa na contemporaneidade e Calabar nem aparece no palco, embora ele seja a força centrífuga que impulsiona a ação dramática, afastando o debate de si, de sua figura, de seus atos, para outros temas paralelos: miséria, cidadania, papel social do escritor, exílio, alienação, controle, violência, impunidade.


M.S.L.: Por que você escolheu Calabar, de Lêdo Ivo, para sua Dissertação de Mestrado?

L.M.: Porque gosto muito da poesia dele – impactante, forte, polêmica, reflexiva – e porque esta obra rompe com a idéia que temos do épico tradicional, inovando em muitos aspectos, de forma sarcástica, ousada, brilhante, magistral. Trabalhar com Calabar foi um desafio difícil, mas ao mesmo tempo muito estimulante.


M.S.L.: Você mal acabou sua dissertação de mestrado, com louvor, e já a está transformando em livro. Além disso, garantiu seu primeiro lugar para o doutorado. Como está sendo esse momento, levando em conta todo o trabalho em Blocos?

L.M.: Sinto-me extremamente esgotada, mas feliz também, na mesma medida, ainda mais por Lêdo Ivo ter me prestigiado com sua presença, proporcionando-me a alegria de congraçar dois tipos de Academias: a Brasileira de Letras e a de Letras da UFRJ. É muito raro e muito precioso um momento como este.


M.S.L.: Como se dá o processo de transformar um trabalho acadêmico em uma obra literária?

L.M.: Estou habituada a roteirizar livros para cinema ou para sinopses de TV, ou a adaptar peças teatrais para livros, então encaro como mais um trabalho deste tipo. Considero até menos desgastante, porque não se trata de uma transcriação teatral (neologismo criado por Haroldo de Campos e ampliado por Linei Hirsch para designar uma obra dramática proveniente de uma obra literária narrativa), mas de dois tipos de escritas literárias. Então o processo flui de forma mais ágil: basta um trabalho de copidescagem e uma mudança na entoação textual para que a mensagem possa atingir maior número de leitores.


M.S.L.: Fale do livro. Qual é o título? Existe um público alvo? Quem vai publicá-lo?

L.M.: “Passagem de Calabar”. O título é do próprio Lêdo Ivo. Quanto ao público alvo, acho que o público implícito existe sempre em toda obra. O livro dirige-se não só a escritores, intelectuais, professores de literatura, estudantes e leitores amantes da poesia, mas também a pesquisadores – pois minha tese é de que o poema dramático é uma das mais visíveis e exuberantes manifestações do gênero épico contemporâneo (e não um gênero híbrido, misto) – e ainda à classe teatral porque, baseada em Emil Staiger, mostro que os poemas dramáticos patéticos, como Calabar, trazem a referência do palco em sua própria constituição literária. Ambos são indissolúveis: literariedade e palco. Através desta linha teórica, espero, na prática, aumentar o interesse dos diretores nos poemas dramáticos, que até agora têm sido pouco encenados por serem considerados, erroneamente, um “teatro literário”, elitista e textocêntrico.
Quanto à publicação, já contatamos algumas editoras, mas ainda não assinamos contrato com nenhuma, até o momento.


M.S.L.: Valentia, ousadia, destemor: Herança ou Conquista?

L.M.: Sem dúvida, trago muito da herança materna em minha formação cultural, embora esse fabuloso legado já esteja bastante acrescido do que aprendi escrevivendo nestes anos todos. Só não sei é se tenho tais atributos. Vejo-me mais como uma formiguinha (até pela minha estatura) trabalhadeira, que tenta colaborar para uma vida melhor, dentro do que sabe e adora fazer; uma formiguinha telúrica – sem quaisquer super-poderes atômicos, como a Formiga Atômica do desenho animado... Mas... espere: acabo de perceber que cometi uma grave injustiça e quero repará-la a tempo: quem disse que as formigas não são valentes, ousadas e destemidas? Inclusive são mágicas: capazes, em certos momentos, de criarem asas para poder voar - justamente como eu, quando escrevo.


Leila, muitíssimo obrigada por mais esse carinho para comigo. Tenho certeza de que “Passagem de Calabar” será mais um estrondoso sucesso dentre todos os seus.

Para conhecerem mais o trabalho de Leila Míccolis e Urhacy Faustino, acessem http://www.blocosonline.com.br/.

Vale a pena conferir!

Márcia Sanchez Luz

quinta-feira, 14 de junho de 2007

CARINHOS ESPECIAIS:


Transcrevo, aqui, mensagens que me são muito especiais e que me chegaram por e-mail.

Deixo claro que só o faço após ter pedido permissão ao remetente.



Olá, Márcia querida prima amiga poeta,

Como vai ?

Pelo pouco que vi dos poemas, a produção cresce e a qualidade, a profundidade e a leveza só aumentam.

Dentre os pensamentos fragmentários que às vezes me ocorrem, há um, que penso ser dos fundamentais para compreender a vida, que quero te passar:


Quando sou feto ouço,
dentro do útero,
um coração batendo perto,
e, com o passar do tempo,
outro que é o meu.

São sons que fazem um ritmo,
no início.
Depois, fazem dois ritmos entrelaçados.
Compassados.
Contínuos.
Às vezes com uma variação,
outras com uma assincronia dissonante.


Penso, Márcia, que aí nascem a música e a poesia, com todas as suas variantes. Nascem também a oração, a reza, o pranto depressivo (regressivo e reconfortante), e, por incrível que possa parecer, a matemática e a lógica, que têm outro tipo de ritmo, mas também o tem. E da interação dos sons nascem as rimas, as dissonâncias, o duodecafônico, que aceitamos, todos, como algo desejável e natural, mas espontaneamente, sem aprendizado.

Você já notou como a poesia e a música levam, via de regra, ao intimismo, ao mergulho no imo, à sensação de que me identifico comigo mesmo em um passe de mágica ? E como a matemática e a lógica nos remetem à sensação de perfeição, como se essa perfeição estivesse dentro de nós?

Pois está. Nas memórias mais antigas, no páleo-encéfalo, na raiz mais profunda de nossas memórias. E nos remete, por vezes, à sensação - bem-vinda - de identidade com todo o passado da espécie e da vida?

Mando para você (em primeiríssima mão, com total e completa exclusividade) este mergulho profundo no meu pensamento mais puro, absolutamente repleto da ingenuidade de descobrir e da melhor sensação que já vivi: a de compartilhar.


Um abraço de peito aberto e pleno de carinho pela minha querida,

Jailson
Preciosíssima Márcia,


Seu Blog é maravilhoso.

Tem "a seriedade que convém a um poeta" (Pessoa) "e a beleza que convém a um poeta-arquiteto" (Jailson).

Vou me sentir muito honrado - o que inclui feliz - de ver meu texto publicado. Penso e sinto que é o lugar adequado.

"Lugar adequado" é muito rico, muito extenso, mas é, ao meu olhar, muito preciso e precioso.

Em breve, tendo tempo - ah tempo! como me atraiçoas, maldito ! - vou lhe enviar mais devaneios, à guisa de colaboração altruísta (se servir para alguém, será)

Gostei imensamente de ver o ritmo que você colocou em minha mensagem. Letra e música! Às vezes a melodia é encantadora.


Mas o mergulho psicanalítico

É... assim nascem nossas manifestações mais íntimas, geradas a partir de como sentimos esses ritmos. Por vezes eles são tão dissonantes que nos incomodam, fazendo parecer que um não pode existir na presença do outro... e quando amadurecemos, percebemos o quanto eles podem ser compassados, o quanto estão entrelaçados, mesmo que partindo para diferentes musicalidades.

É a mesma passagem da terra ao céu ou do céu à terra que vejo em muitos de seus poemas. Maravilhoso, eu sinto. E muito característico da Márcia de minhas memórias de infância e adolescência, tão recentes. E é, ao mesmo tempo, uma re-leitura tão adequada de meus pensamentos e sentimentos que fiquei vários minutos sem entender que o texto era seu e não meu.

Parabéns pela iniciativa de fazer um blog tão bom e tão adequado. Vamos poder compartilhá-lo, muito e muitas vezes.

Mas, com todo o respeito que tenho pela minha querida poetisa, ainda falta muito trabalho seu a ser publicado.
Ou ainda a ser parido.
Sinto que o melhor ainda está por vir.
Você tem ainda muuuuuito mais a deixar para responder ao "A que vim?"


Grande beijo de cumplicidade de almas poéticas,

Jailson


Comentário postado para o poema LAMENTO:

Teu LAMENTO é o que mandei para minha filha, com o devido copyright, lamentando que não tivesse sido eu a escrevê-lo, de tão perfeito.Tuas palavras pintam em tons pastéis o luto pela ausência de tons pastéis, e lançam luz e esperança de encontro em cores quentes.

Voilà.

Jailson Sanchez

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Glauco Mattoso Site Oficial

SONETO FORMATADO [724]

Um som não se traduz por um sinal
ou letra, mas um signo se traduz
por sons de várias cores e reluz,
profundo, no mais negro ermo abissal.

Um soro é uma mistura de água e sal.
As cores são mistura de olho e luz.
Em preto e preto um quadro hoje compus,
que, exposto, é um arco-íris virtual.

Qualquer formato é plástico ao poeta
que move na intermídia sua pena
imersa em tinta etérea: um clique à seta.

Enquanto a micropágina é pequena,
o dígito é gigante, e quem deleta
deleita-se por mim na visão plena.

(publicado com a autorização do autor)
Glauco Mattoso Site Oficial

SONETO ALTISSONANTE [227]

Barulho é o que se faz na poesia,
de dentro para fora do poema.
Se não for ruidoso o próprio tema,
a forma desafina a melodia.

Se o atonal virou monotonia,
resolve-se na crítica o problema.
É só polemizar, com tinta extrema,
se a pança deve estar ou não vazia.

A fome, última instância do organismo,
define o decibel do belo artístico,
que vai de zero a dez em ativismo.

A coisa se resume neste dístico:
Mais pintam de fatídico um abismo,
maior seu interesse e grau turístico.

(publicado com a autorização do autor)

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Poema de Soares Feitosa



NO CÉU TEM PROZAC

Para Francisco, quatro anos, Brasil, Seca do 93; ele partiu depois de perguntar à mãe se no Céu tem pão.


Sob a ira de Zeus,
o monge balbucia,
entoam-se os mantras sagrados,
aperta-se o cilício,
o globo se equilibra,
em peripécia
e gira.

Adiam-se-lhe os minutos,
ao gesto do amor,
sacrifícios e devoções:
êxtase de Margarida,
êxtase de Madre Teresa,
êxtase do Cura D’Ars,
êxtase da irmã Dulce;

gira e gira,
sustida em piedade, Colunas de Hércules,
Atlas da Fé — a destruição merecida —,
gira e gira — adiada —
a serviço do mal,
sob o império do mal,
o mundo gira e gira...
Os santos vigiam e guardam, só eles:
vigiai e orai!

— Mãe, no céu tem pão?


Pois nem só de pão vive o homem:
há que ter pão, do céu,
ao espírito;
há que ter pão, em cima da mesa,
aos escolhidos;
há que ter pão, debaixo da mesa,
aos enjeitados;
sempre existirão pobres convosco,
migalhas a Lázaro;
ao banquete, as libações:


— Saúde, muita saúde, Coronel!


Tem, filhinho, muito pão,
pão-doce, pão-seco, muito pão,
.................. aquele,
............................ bem gostoso .........................
................................................................................ durma, filhinho,
amanhã, deixo você brincar...
Durma, meu amor.


Auriverde pendão de minha terra,
que a brisa do Brasil beija e balança...
Famintas do meu Brasil
precisam sonhar com um pão,
as crianças, às portas do Céu,
para entrar no Céu;
verás, infante,
não há país como este;
em se plantando, ó Caminha,
sim, plantaram,
plantaram nas algibeiras,
onanistas do metal;
plantaram fora, nas Flóridas,
plantaram no sigilo, Gstaad,
plantaram a mandioca,
sob a Floresta, sobre o calcário, no pampa imenso,
vinte centímetros, dizem,
cobriria a Cisplatina,
aterraria o Prata...

Em se plantando, seu Caminha,
o que dá, não dá;
o que deu, não deu,
nunca deu...!
o que deu, o gato comeu;
o que sobrou, o rato roeu.


Tem mesmo, mãe, tem...
verdade,
lá,
no céu,
tem pão?

(Em tom de ninar, em voz só de mãe):

Desce gatinho,
de cima do telhado,
para ver o Francisquim
dormir bem sossegado...

Desce, gatinho,
de cima do telhado,
para ver o Francisquim
dormir bem sosssegado...


Adormeceu ...................................... :


Dormiu.


Causa mortis:
inanição,
morte.


E dormimos,
todos,
o sono dos justos:


In,
in memoriam;
in,
infamiam;
in,
injustitiam:

Prozac!


Salvador, boca de noite de 12.7.1994

(Poema publicado com a autorização do autor)

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Leila Miccolis disse...
Adorei ver meus poemas em seu blog, ficaram lindos, muito fotogênicos através de você. E o "com autorização da autora", então, perfeito: seria ótimo se todos tivessem esse carinho prévio para com os poetas. Não é à-toa que me considero privilegiada em ser sua amiga. Beijo, Leila

8 de Junho de 2007 12:26

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Poema de Leila Míccolis

Ciclo Familiar:

ESTABILIDADE

Vivemos como casal:
você trabalha demais,
me sustenta,
proíbe isso e aquilo,
exige a casa arrumada,
quer almoço à uma hora,
o jantar às sete e meia,
sobremesas variadas...

Com teus caprichos concordo,
e por vingança, te engordo.

(poema publicado com a autorização da autora)

Poema de Leila Míccolis

Ciclo Lírico:

NOVO AMOR

Meu coração nunca pára
pra comparar, solta amarras,
vive seu tempo presente:
se ferido, em mim se ampara;
mas quando sara e se sente
contente, fica eloqüente,
feito algazarra de araras.

(poema publicado com a autorização da autora)

sábado, 2 de junho de 2007

LAREIRA ACESA

Em frente à lareira acesa
Contemplo o fogo que aquece
E que em brasa, a madeira
Meu amor transparece.

Meu coração não te esquece
Não te perde quando sonha
Enlouquece, entontece
Fica aceso feito chama.

Feito fogo em álcool embebe
Fico afoita, doida, rouca!
Te desejo, tonta e pronta
Te apercebes, me recebes.

Defronte à lareira acesa
Aqueço meus sentimentos!
Meus pensamentos se aquietam...
Aquieto-me frente à beleza
Que me convida a sonhar...
Com sua chama
Com sua calma
Acalma meus medos
Alerta-me
Fita-me
Incita-me
Faz-me sorrir.

© Márcia Sanchez Luz


*Do Livro "No Verde dos Teus Olhos" - Editora Protexto, PR - 2007

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Jornal de Poesia

Fernando Pessoa
cancioneiro

Não: não digas nada!

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.
És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.
Wikisource

Autopsicografia
por Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.