sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Crônicas - Airo Zamoner


REBELDIA
© Airo Zamoner

- Espere aí! Você não está querendo dizer que o que me falta é rebeldia, está?
- Estou!
- Isso é inacreditável! Tive uma vida regrada. Tudo certinho no lugar. Me formei, fiz mestrado, doutorado, pós-doutorado e trabalho diuturnamente em pesquisas vitais para a humanidade... Não sou estúpido pra jogar tudo isso pro alto!
- Estou tentando ajudar a explicar essa sua sensação... Você está aqui agora, em pleno horário de expediente, sentado comigo neste banco público... Por quê?
- Já disse antes! Não me sinto bem!
- E o médico?
- Não é coisa de médico...
- Então, voltamos ao início. Vou falar agora com todas as letras...
- Estou ouvindo...
- Está faltando rebeldia em você!
- Eu sou um cumpridor de normas...
- Nunca pensou em ser um criador de normas?
- Como?
- Que normas você cumpre?
- Todas as normas, ora essa! Administrativas, trânsito, civis, penais, constitucionais...
- E as normas pessoais?
- Que normas pessoais?
- Aquelas que você criou há sei lá quantos anos...
- Eu criei? Tá maluco?
- Eu não! Você, sim! São essas normas que estão incomodando aí dentro de você.
- Que normas são essas? Eu não sou criador de normas...
- É sim! Que norma você segue quando levanta de manhã, antes do horário que você gostaria?
- São minhas obrigações funcionais. Não fui eu quem as criou!
- Quem criou a norma que determinou que você deveria trabalhar nesse emprego? Casar com aquela mulher? Ter esse número de filhos? Fazer esse plano de saúde? Morar nesta cidade? Ter esses amigos? Sentar agora aqui neste banco? Conversar comigo? Obedecer aos seus chefes? Sofrer as chantagens do cargo? Aceitar as chantagens pra não perder alguma coisa?
- ... ?!
- Quem?
- Ora essa! Isso é armadilha! O senhor está me confundindo...
- Não tem confusão, não! Falta rebeldia! Pra você. Pra todo mundo, falta rebeldia! Não falo de rebeldia de palavras. Isso está todo mundo fazendo. Falo de rebeldia mesmo! Virar a mesa, a cadeira, a casa, a cidade. Virar tudo!

- O senhor é doido...Não respondi. Ele ficou quieto. Muito quieto. Braços cruzados, olhando o chão quebrado e sujo da calçada. Não se mexia, nem eu. Foram longos cinco minutos...
- Eu poderia ser professor de surf ao invés de física quântica... Estaria morando na praia...Levantou lerdo como uma lesma. Nem descruzou os braços para andar. Nem tirou os olhos do chão e foi indo...Voltei ao meu jornal. Levei mais de uma hora pra ler tudo. Esperava o engraxate. Ele chegou. Sorria como sempre, exalando alegria:
- Oi, doutor! Vai um lustro aí?Ele ligou o rádio e a música parou de repente.
- Notícia extraordinária! Uma residência de alvenaria, inexplicavelmente esta manhã, virou de alicerces para o ar. Sabe-se que o proprietário é um professor de física quântica. Seus moradores não foram encontrados.

- O doutor está se sentindo bem? Está meio branco!

(Crônica publicada com a autorização do autor)