quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Crônica de Rubens da Cunha


OURIÇOS

O ouriço é um bicho poético por natureza porque parece intocável. Há nele a alegoria perfeita de que tudo tem, no mínimo, dois lados, duas possibilidades de olhar. O ouriço e suas costas cheias de pelos-espinhos, o bicho capaz de se enrodilhar e virar uma bola de agressão, de dor, de medo para quem chega perto, é o mesmo bicho macio e delicado, um bicho frágil, angustiado por sua condição dupla: espinho e candura.

Muitas pessoas são assim, ouriçadas. Obviamente algumas se tornaram apenas espinhos, sem dentro, sem espaço macio, mas outras não, outras carregam nas costas o peso dolorido da vida, e mal ou bem, passam adiante esse peso, mas também tem uma elegância, uma vontade de serem mais leves, menos secretas em suas qualidades.

Somos rasos por natureza, nos apoiamos muito nas aparências, então ao vermos um ouriço só vemos seu externo, seu perigo, pouco vemos o dentro, o lado encostado à terra, o lado que precisa, de uma forma ou outra, ser protegido. Na verdade, somos todos meio ouriços, somos todos meio casca agressiva, seja para nos mantermos vivos e dignos, seja pelo medo de sofrer mais ainda. A questão fica por conta da falta de equilíbrio de alguns: muitos se disfarçam em espinhos que se transformam em um deles. É o verso de Fernando Pessoa revivendo, reafirmando uma verdade: “Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. / Quando quis tirar a máscara, / Estava pegada à cara. / Quando a tirei e me vi ao espelho, / Já tinha envelhecido.” Esse é o perigo, uma vida se enrolando, se fazendo bola de espinho, se fazendo máscara, para depois descobrir-se velho, descobrir-se azedume e impossibilidade de retorno. Não que tudo tenha que ser sempre doçura, candura ou uma vida rimada no sentimentalismo de Poliana, mas algum bom senso, algum espaço para entregas, para confianças, para o uso delicado e poético da vida temos que ter.

Viver é ter sempre esse cuidado de não deixar que a máscara se apegue à cara, que o espinho não atravesse a pele e atinja algo dentro. Mas também tem o outro, afinal existimos em função do outro. Ninguém é uma ilha, já anuncia a séculos o clichê, somos comunidade, e isso nos ouriça, isso nos faz enrodilhar muitas vezes. Viver é conseguir, de uma maneira ou outra, que o enrodilhamento, que o espinhamento, não seja total, não seja para todo o sempre, não seja a única maneira que temos de contato com a pele do outro. As defesas são justificáveis, o problema se estabelece quando defesas se transformam em ataque, ou quando o ataque é a melhor defesa, dai as relações se estremessem, daí somos apenas espinhos nas bocas dos cães, nada mais. Toda a delicadeza, toda a maciez se perdeu, pois deixamos nos outros apenas nossa casca, nossa máscara, nossa dor apegada à cara. Mostrar o rosto verdadeiro, mostrar o dentro do corpo, muitas vezes, é um ato bem mais corajoso e libertador do que nos protegermos com os espinhos, mesmo que para isso tenhamos que baixar as defesas, tenhamos sair um pouco da zona de segurança e invadirmos, frágeis e delicados, o desconhecido.

(Texto publicado com a autorização do autor)