segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Poeta Castrado, não!


José Carlos Ary dos Santos














Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo, dromedário
fogueira de exibição
teorema, corolário
poema de mão em mão
lãzudo,  publicitário,
malabarista,  cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado, não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo,
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura, como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria,
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala…
é tão vulgar que nos cansa ...
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história…
a morte é branda e letal ...
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia? …
Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?! …
Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo, mau profeta
falso médico, ladrão
prostituta, proxeneta
espoleta, televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado, não!

(Poema enviado por Eugénio de Sá)