sábado, 2 de novembro de 2013

Jornada - soneto de Airo Zamoner

Jornada *

Airo Zamoner. Primavera de 2013


(Img: O Grito, de Edward Munch)



























A manhã que me açoita calores e gelos
era outrora só risos do alto da serra.
E se agora me finge tais beijos e apelos,
um escuro e arrogante final me descerra.

Se, tirana, me impinge a deixar meus valores
eu reluto que deles preciso no inverno
que me exaure das lutas vencidas. As dores,
estas que fiquem puras, ferventes, no inferno.

Sim! Deixo-os todos, meus órgãos digitais!
Não me olhes assim, de repente calada!
Tiram-me dos meus sonhos: estranhos metais.

Eu sei! Já não me cabe decidir mais nada!
Enquanto os pensamentos teimam, nos umbrais
publicam-se os anúncios do fim da jornada.

* Do livro em preparo "Últimos Sonetos"

(Soneto publicado com a autorização do autor)

Um comentário:

  1. Diante de tanta angústia...só nos cabe ficar "assim, de repente ,calada"
    Belo e pungente soneto.
    Um abraço

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