sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Leila Míccolis, em prosa


RECUERDOS DO CEARÁ

Leila Míccolis


Em 1977, deixei a advocacia cheia de garra pela literatura, Ágape que até hoje não perdi, embora seja um pouco mais moderada do que há vinte e dois anos. Logo no ano seguinte, em 1978, Wladyr Nader, da então heróica Revista Escrita (SP), encomendou-me pela sua Editora Vertente, uma antologia com poetisas "não-alinhadas", ou seja, escritoras que não estivessem satisfeitas com a situação do mundo nem com a própria condição feminina. Reuni dez "Mulheres da Vida", título polêmico, próprio para mulheres que estavam na vida, questionando diversos aspectos sociais. O título, severamente criticado por direitistas, por esquerdistas tradicionalistas e até por centristas pseudo-moralistas, foi muito bem compreendido pelo público, que o interpretou corretamente, sem conotações depreciativas, como, aliás, eu previra mesmo que o fizesse.
Lancei a antologia no Rio de Janeiro e em várias capitais nordestinas, inclusive Recife e Natal. Quando cheguei em Fortaleza, nenhuma livraria queria aceitá-lo. Estávamos ainda sob o tacão da repressão e os livreiros receavam que a polícia aparecesse e fizesse das suas costumeiras gentilezas: invadisse a loja selvagemente, batesse nas pessoas, rasgasse livros, revirasse todas as prateleiras, instalasse o pânico. Ninguém queria correr este risco por lá. Para piorar, um jornalista que ouviu cantar o galo, mas não sabia onde (no caso, não lera o livro mas queria parecer bem informado), resolveu escrever que "Mulheres da Vida" era um relato autobiográfico de dez prostitutas. Eitcha! Aí danou-se tudo, fecharam-se de vez as portas de livrarias, pois todas eram muito decentes, de boa família e de fino trato.
Liguei para minha amiga Socorro Trindad, em Natal, uma das integrantes do livro (as outras eram: Norma Bengell, Isabel Câmara, Maria Amélia Mello, eu, Eunice Arruda, Aninha Franco, Many Tabachinik, Glória Perez e Réca Poletti). Relatei minha dificuldade e, depois de pensar um pouco, ela me sugeriu: "bom, se estão falando isto de nós e se as livrarias não aceitam o livro, então lance-o num prostíbulo"... Gostei da idéia. Dirigi-me a uma casa que achei simpática, nas imediações da Praça São Sebastião, e fui muito bem recebida lá. Maria Loura deu-me todas as facilidades para a realização do meu projeto, e, alguns dias depois, autografei o livro no Cabaré Estrela do Oriente.
O que devia ser lançamento, passou a ser algo diferente, inusitado, novo, com significados simbólicos: uma espécie de manifesto cultural, um ato de veemente protesto, chamando a atenção da mídia para o evento. Resultado: todos os jornais e televisões cobriram a "ousada manifestação cultural" e nunca tive um lançamento fora do Rio de Janeiro com tanta gente (inclusive foi lá que conheci Paulo Veras, saudoso parceiro, depois, no livro "Maus Antecedentes"). A intelectualidade em peso esteve presente, e também inúmeros políticos, que "hipotecaram sua solidariedade à nobre causa" literária. Vendi tanto livro que os exemplares que levei não foram suficiente; acabei vindo com mais de cento e cinqüenta encomendas pagas adiantadamente, mesmo os compradores sabendo que só receberiam o seu exemplar quase quinze dias depois, quando eu retornasse ao Rio.
O mais bonito de tudo, porém, foi a atitude da dona do bordel. Ela se sentia muito contente pelas altas personalidades em seu estabelecimento, é claro, mas estava mais comovida ainda pelo livro em si, por escritoras de nome não terem tido medo de serem "confundidas com elas". Eu raramente vi alguém pegar um exemplar com tanta consideração, com tanto respeito. Também raramente vi alguém ter uma interpretação tão simples e tão adequada de meus poemas. Era uma fase em que eu, propositadamente, queria chocar os bem-comportados, sacudir-lhes os ombros, e não media palavrões para agredir os puritanos. Pois ela, sem se importar com as palavras "de baixo calão" (afinal, costumava ouvi-la todas às noites justamente dos bem-comportados e dos puritanos), passou por elas com a maior naturalidade e se deteve no cerne da mensagem, que elas conheciam, na própria pele: o questionamento da condição feminina.
Maria Loura estabeleceu as "medidas de exceção" que achou compatíveis com a ocasião solene: a primeira delas foi a ordem expressa para que nenhuma de suas meninas trabalhasse, o que desmontou a imagem que tinham me dado, de que elas fossem extremamente interesseiras e mercenárias... Aquelas pelo menos, se fossem, teriam muito bem aproveitado a chance de triplicarem os lucros pela grande freguesia interessada nelas, já que o programa era insólito: compre um livro e leve uma menina... No entanto, todas diziam não. Trabalho, naquela noite, só de garçonetes, servindo as mesas, de copeiras, lavando a louça... Depois, Maria Loura continuou me supreendendo quando não aceitou o percentual da venda do livro, combinado anteriormente. Alegou que o consumo de comes e bebes fora mais do que suficiente, lucrara com isso e, principalmente, com a propaganda; por fim, no final da noite, ainda sentou-se com suas meninas e varou a madrugada me contando histórias, de alegria, de dor, de decepção, de esperança, e todas me tocaram profundamente, mudando em muito a imagem que eu tinha da "profissão mais antiga do mundo"....
Hoje, ao lembrar-me de Maria Loura e suas meninas do Cabaré Estrela do Oriente vem-me a mente a letra de Chico Buarque de Hollahda, em "Umas e Outras", quando uma freira e uma prostituta cruzam a mesma rua: "Mas toda santa madrugada/ quando uma já sonhou com Deus/ e a outra, triste namorada,/ coitada, já deitou com os seus,/ o acaso faz com que essas duas,/ que a sorte sempre separou,/ se cruzem pela mesma rua/ olhando-se com a mesma dor"... Não éramos freiras, naturalmente, mas, sem dúvida, mesmo com vidas tão diferentes, nos reconhecíamos, naquela noite, entre tantos sentimentos conflitantes oriundos de uma severa sociedade patriarcal.
Sempre me lembro deste lançamento com muito carinho, e o considero como sendo o melhor que já tive até hoje.

(publicado com a autorização da autora)