quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Fernando Pessoa

ANÁLISE

Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

Fernando Pessoa, 12-1911

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Blocos - Teatro - Notícias


TESTE PARA ATORES QUE SAIBAM CANTAR E TOCAR VIOLÃO


PRECISAMOS DE ATORES/MÚSICOS QUE SAIBAM CANTAR E TOCAR VIOLÃO PARA O MUSICAL INFANTIL ECOLÓGICO 'VAMOS COLORIR O MUNDO'.

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(Notícia enviada por Amilton Ferreira).

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tribodobar@terra.com.br
A/C DORA GONÇALVES

(Notícia enviada por Amilton Ferreira)

segunda-feira, 30 de julho de 2007

A Ingmar Bergman, que hoje nos deixou

VIAGEM

No nascer do sol
O expoente se inicia
Com a maldição do olhar.
E nas trevas ardentes
De chuvas que brotam
De mágoas intensas,
O sol desaparece
Num quebranto
De dor e amargura
Num espanto
De amor e ternura.

Márcia Sanchez Luz ©

domingo, 29 de julho de 2007

Márcia Sanchez Luz - Blocos - Poesia Brasileira Contemporânea

Márcia Sanchez Luz - Blocos - Poesia Brasileira Contemporânea:

FILHO DO DESTINO

Ao longe se avistava uma mangueira
Onde se via um pequeno menino
Sentado sobre seus corpulentos galhos
Matando a fome e a sede do cotidiano.

De longe se avistava uma mangueira
Bem no meio de um lindo gramado
Onde corriam cães, galinhas e esquilos
Todos em perfeita harmonia primaveril.

O menino, pobre filho do destino,
Da mangueira fez seu pão de cada dia
E a cada dia que passava
Passava o dia a se esconder
De cada novo dia a amanhecer.

Márcia Sanchez Luz ©

sábado, 28 de julho de 2007

GENTE HUMILDE
(Garoto - Vinicius de Moraes - Chico Buarque/1969)

Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a como
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar

São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Poemas de Leila Míccolis - ciclo ditaduras


CONTRADIÇÕES


Foi na vida que aprendi
a interpretar às avessas
os provérbios, pois na prática
as verdades são inversas:
quem não deve é quem mais teme,
há quem cale e não consinta,
e o diabo é exatamente
tão feio quanto se pinta.

(publicado com a autorização da autora)

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Carta de uma Mãe que perdeu o filho na tragédia de Congonhas



A carta a seguir chegou até mim por e-mail, e achei por bem dividi-la com todos vocês que acessam este espaço.

Acredito que está mais do que na hora de fazermos uma reflexão a respeito de nossa função no mundo em que vivemos, para descobrirmos "a que" viemos nesta vida.

Não podemos mais assistir passivamente aos fatos trágicos que nos assolam diariamente e só lamentá-los.

Muita coisa há que ser mudada, e cabe a nós essa tarefa.

Como bem disse Vandré, "quem sabe faz a hora, não espera acontecer...".

Márcia Sanchez Luz



"Aos governantes e à família brasileira,

Perdi o meu único filho.

Ninguém, a não ser outra mãe que tenha passado por semelhante tragédia, pode ter experimentado dor maior.

Mesmo sem ter sido dada qualquer publicidade à missa que ontem oferecemos à alma de meu filho, Luís Fernando Soares Zacchini, mais de cem pessoas compareceram. Em todos os olhos havia lágrimas. Lágrimas sinceras de dor, de saudade, de empatia. Meus olhos refletiam todos os prantos derramados por ele, por mim, por seu filhinho, por sua esposa, por todos parentes e amigos. Por todos os sacrificados na catástrofe do Aeroporto de Congonhas.

Há muito eu sabia que desastres aéreos iriam acontecer. Sabia que os vôos neste país não oferecem segurança no céu e na terra. Que no Brasil a voracidade de vender bilhetes aéreos superou o respeito à vida humana. A culpa é lançada sobre um número insuficiente de mal remunerados operadores aéreos ou sobre as condições das turbinas dos aviões. Um Governo alheio a vaias é responsável pelo desmonte de uma das mais respeitáveis e confiáveis empresas aéreas do mundo, a VARIG, em benefício da TAM, desde então, a principal provedora de bilhetes pagos pelo Governo. Que a opinião pública é desviada para supostos erros de bodes expiatórios, permitindo aos ambíguos incompetentes que nos governam continuarem sua ação impune. Que nossos aeroportos não têm condições de atender à crescente demanda de vôos cujo preço é o mais caro do mundo. Quando os usuários aguardam uma explicação, à falta de respeito ao cidadão juntam-se o escárnio e a cruel vulgaridade de uma ministra recomendando aos viajantes prejudicados que relaxem e gozem. Assuntos de alcova não condizentes com a reta postura moral e respeito exigidos no exercício de cargos públicos. Assessores do presidente deste país eximem-se da responsabilidade e do compromisso com a segurança de nosso povo exibindo gestos pornográficos. Gestos mais apropriados a bordéis do que a gabinetes presidenciais. Ao invés de se arrependerem de uma conduta chula, incompatível com a dignidade de um povo doce e amável como o brasileiro, ainda alardeiam indignação, único sentimento ao alcance dos indignos. Aqueles que deveriam comandar a responsabilidade pelo tráfego aéreo no Brasil nada fazem exceto conchavos. Aceitam as vantagens de um cargo sem sequer diferenciarem caixa preta de sucata. Tanto que oneraram e humilharam o país ao levar o material errado para ser examinado em Washington. Essas são as mesmas autoridades agraciadas com louvor e condecorações do Governo em nome do povo brasileiro, enquanto toda a nação, no auge de sofrimento, chorava a perda de seus filhos.

Tudo isto eu sabia. A mim, bastava-me minha dor, bastava meu pranto, bastava o sofrimento dos que me amam, dos que amaram meu filho. Nenhum choro ou lamento iria aumentar ou minorar tanta tristeza. Dores iguais ou maiores que a minha, de outras mães, dos pais, filhos e amigos dos mortos necessitam de consolo. A solidariedade e amor ao próximo obrigam-nos a esquecer a própria dor.

Não pensei, contudo, que teria de passar por mais um insulto: ouvir a falsidade de um presidente, sob a forma de ensaiadas e demagógicas palavras de conforto. Um texto certamente encomendado a um hábil redator, dirigido mais à opinião pública do que a nossos corações, ao nosso luto, às nossas vítimas. Palavras que soaram tão falsas quanto a forçada e patética tentativa que demonstrou ao simular uma lágrima. Não, francamente eu não merecia ter de me submeter a mais essa provação nem necessitava presenciar a estúpida cena: ver o chefe da nação sofismar um sofrimento que não compartilhava conosco.

Senhores governantes: há dias vejo o mundo através de lágrimas amargas mas verdadeiras. Confundem-se com as lágrimas sinceras e puras de todos os corações amigos. Há dias, da forma mais dolorosa possível, aprendi o que é o verdadeiro amor. O amor humano, o Amor Divino. O amor é inefável, o amor é um sentimento despojado de interesse, não recorre a histriônicas atitudes políticas.

Não jorra das bocas, flui do coração!

E que Deus nos abençoe!

Adi Maria Vasconcellos Soares

Porto Alegre, 21 de julho de 2007."

(enviado por Jailson Sanchez)

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Poesia Temática Cores - Blocos Online


NO VERDE DOS TEUS OLHOS

No verde dos teus olhos
Enxergo teus enganos
Proclamo teus pecados
E clamo, não me deixes!

O azul que em mares vês
Em verde se transforma
Transformas até ele
Por que não te transformas?

Trazes formas diversas
E cores modificas
Pergunto se não podes
A dor modificar.

Norteias meu sorriso
Aturdes meu compasso
Num branco me arremessas
Atiras-me no espaço.

E eu envolta em prantos
Prateio teu remorso
Ajustando em meu canto
Teu espelho, meu cansaço.

Márcia Sanchez Luz ©


*Do Livro "No Verde dos Teus Olhos" - Editora Protexto, PR - 2007

Glauco Mattoso Site Oficial

Glauco Mattoso Site Oficial:

SONETO 234 CONFESSIONAL

Amar, amei. Não sei se fui amado,
pois declarei amor a quem odiara
e a quem amei jamais mostrei a cara,
de medo de me ver posto de lado.

Ainda odeio quem me tem odiado:
devolvo agora aquilo que declara.
Mas quem amei não volta, e a dor não sara.
Não sobra nem a crença no passado.

Palavra voa, escrito permanece,
garante o adágio vindo do latim.
Escrito é que nem ódio, só envelhece.

Se serve de consolo, seja assim:
Amor nunca se esquece, é que nem prece.
Tomara, pois, que alguém reze por mim...

(publicado com a autorização do autor)

domingo, 22 de julho de 2007

O POETA

O POETA

O poeta molha a face
Seca o pranto e se levanta
Deixa o prato, deixa tudo
Só não deixa a esperança.

Escreve...
Rabisca...
Pára o carro num lampejo
Desce o morro
Amarra a fala
Afia a alma
Afoga a dor
Aflige a calma
Cospe fogo se preciso.

O poeta assume a culpa
Do buraco que matou
Da faca que cortou
Do fogo que queimou
Da água que afogou
Do ar que rareou
Da dor que se assolou.

Aniquila-se...
Perturba-se...
Mas logo se levanta
Corre atrás do que esquecera
Verte a culpa, a insensatez
Lava a alma, cospe o horror
Tira disto uma certeza:
Nunca deixa de sentir.

Márcia Sanchez Luz ©


*Do Livro "No Verde dos Teus Olhos" - Editora Protexto, PR - 2007

sábado, 21 de julho de 2007

TRAGÉDIA

VÔO 3054, TAM – A TRAGÉDIA

Mais um vôo que ficou para trás.
Por trás disso tudo, o que fica para nós?
Mais uma triste estatística somente, ou será que devemos nos reorientar para tentarmos buscar soluções para as quais políticos fecham os olhos?

Tantas vidas se perdem hoje, quantas vidas se perderam e quantas ainda hão de se perder nesse turbilhão de horrores que transformam nosso dia a dia, fazendo-nos sentir cada vez mais impotentes frente à realidade que assusta, incomoda, e na qual não interferimos como agentes que, pressupostamente, deveríamos ser.

Será que não estamos também fechando nossos olhos para os horrores, e por que não dizer atentados, que presenciamos a todo instante? Será que nossos corações já se acostumaram com ignóbeis fatos?

Permito-me, hoje, estancar as lágrimas para não estancar a revolta, para poder ver com mais clareza e sensibilidade o que desconfigura nosso “status” de ser humano.

Tanto vemos e ouvimos que acabamos por nos acostumar com tais fatos. Precisamos voltar a gritar, mesmo que esse grito não atinja a imensidão de falcatruas a que nos habituamos, querendo ou não.

É preciso acordar desse pesadelo, rever nossa postura com relação ao mundo, para tentar reverter esse processo que nos leva, a curto prazo, ao fim de nossos dias enquanto seres que pensam e se crêem capazes de algo que realmente intervenha e interfira nessa realidade cruel.

Márcia Sanchez Luz
(madrugada de 17 para 18 de julho de 2007)

sexta-feira, 20 de julho de 2007


O ESPELHO


No espelho antevi o porvir
Moldado em arquétipos
Repleto de tipos
A se refletirem.

Contemplei limites
Vitais ilusões
Secretas crenças
A persistirem.

Veracidades...
Versatilidades...
Várias cidades
A se extinguirem.

Integrei-me à imagem
Em alto relevo
Entreguei-me à miragem
Que agora descrevo.

Seculares momentos
Discretos rebentos
Reflexos perdidos...
Puídos!

Márcia Sanchez Luz ©


*Do Livro "No Verde dos Teus Olhos" - Editora Protexto, PR - 2007

quarta-feira, 18 de julho de 2007

SEMPRE


SEMPRE

Sempre que puder
Buscar-te-ei no infinito
Mais profundo de meus sonhos.

Sempre que puderes
Procura-me em meu silêncio
Que encontrarás meu ser.

Estarei pronta.
Em meu casulo te abrigarei
E te alimentarei
E te amarei
E serei tua como a lua
Que espera a noite chegar
Como o sol que se deita
E te aquece
E te acalma
E te ilumina.
Sempre.

Márcia Sanchez Luz ©

domingo, 15 de julho de 2007

Guardo-te - Márcia Sanchez Luz - Blocos - Poesia Brasileira Contemporânea



GUARDO-TE

Guardo-te na memória
Como uma grata lembrança!
Alcanço teu desalento
Tua ausência choro e lamento.

Foste caminho inseguro
Apesar de achares que não...
Foste presença marcante
Ainda que não soubesses.

Caminhamos lado a lado
Dividindo nossos livros
Partilhando amigos
Segredos selados...

Visito nossa adolescência...

Tecíamos enredos
Trocávamos medos
E as noites em claro!

Por quê cresceste diferente
Do que havíamos tratado?

© Márcia Sanchez Luz

*Do Livro "No Verde dos Teus Olhos" - Editora Protexto, PR - 2007