sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Márcia Sanchez Luz no Jornal O Globo

Revista Megazine do Jornal O Globo, de 9 de agosto de 2011, publica soneto "Vida", de Márcia Sanchez Luz




(Exemplar enviado por Berg Nascimento.)

domingo, 14 de agosto de 2011

As mãos de meu pai

Mario Quintana

(Img: arquivo pessoal)






















As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.

E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas...
essa chama de vida — que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma...

Fonte: AVSPE - homenagens de vários poetas aos Pais

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Soares Feitosa

À vista de ti















Nunca te vi, melhor que seja assim.

Teus cabelos seriam trinados ao vento?

Poderia eu dizer “treinados”, eles seriam — porque aí corre
o vento da tardinha — sempre me dizes
do vento.

Guardo teus papéis eu guardo.

Perco-os, justo que me percam.

Um cartãozinho..., teu, a te encontrar, azul...,
azul seria a saia de sair?

Ou, haverias de preferir uma roupinha amarela
e os olhos vagos de nenhuma palavra?

O que poderei dizer quando te encontrar?..., se.

Nestes tempos modernos, teria lugar para um silêncio?

Falarias?
De que nos diríamos?

Melhor que teus cabelos fiquem ao vento.

Ah, vento doce, da noite,
como me perfumas o hálito desta noite cedo.


Fonte: Jornal de Poesia

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Samuca Santos
















RECIPHOTO


meus olhos hasselblad
dignificam esta cidade
mais que o surpreendente
cor de telha, nuvens chumbo
entre os dentes da manhã

meus olhos rolleyflex
emprestam romances de bossa nova
sussurradas as vozes ainda
dos camelôs operários e vagabundos
policiais sonolentos
prostitutas arrasadas

meus olhos japoneses, digitais
filtram a miséria
passam pelo photoshop
e agradeço à maré cheia
que esconde a lama
e mostra o mangue

meus olhos polaroid
de instantâneos efêmeros
enquadram barracas de frutas
e nem penso mais
nesta cidade de filhos da puta


Fonte: Interpoética

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Gonçalves Dias

SEUS OLHOS
 












Gonçalves Dias
(10.08.1823 - 3.11.1864)


Seus olhos, tão negros, tão belos, tão puros,
de vivo luzir,
estrelas incertas, que as águas dormentes
do mar vão ferir;

seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
de meiga expressão
mais doce que a brisa, — mais doce que a frauta
quebrando a solidão.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
de vivo luzir,
são meigos infantes, gentis, engraçados
brincando a sorrir.

São meigos infantes, brincando, saltando
em jogo infantil,
inquietos, travessos; - causando tormento,
com beijos nos pagam a dor de um momento,
com modo gentil.

Seus olhos são negros, tão belos, tão puros,
assim é que são;
às vezes luzindo, serenos, tranqüilos,
às vezes vulcão!

Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco,
tão frouxo brilhar,
que a mim parece que o ar lhes falece
e os olhos tão meigos, que o pranto umedece,
me fazem chorar.

Assim lindo infante, que dorme tranqüilo,
desperta a chorar;
e mudo, sisudo, cismando mil coisas,
não pensa — a pensar.

Nas almas tão puras da virgem, do infante,
às vezes do céu
cai doce harmonia duma harpa celeste,
um vago desejo; e a mente se veste
de pranto co'um véu.

Eu amo seus olhos tão negros, tão puros,
de vivo fulgor;
seus olhos que exprimem tão doce harmonia,
que falam de amores com tanta poesia,
com tanto pudor.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
assim é que são;
eu amo esses olhos que falam de amores
com tanta paixão.


Do livro: "Livro do Corpo", LP&M Editores, 1999, RS
Enviado por: Márcia Maia

Fonte: Blocos Online

domingo, 7 de agosto de 2011

A ESFINGE

Cicero Melo


(Img: Google)
   












 









Se não te sinto luz, onde a candura
Das palavras bem ditas, bem formadas?
Nas minhas mãos, por ora, vejo estradas
Em traçados de cega agrimensura,

Se não te vivo em mim, vivo a loucura
Das palavras de amor incendiadas,
As taças da paixão dilaceradas
Na bacanal de sangue e de ternura.

Amor, amado amor, amargo amor,
Como dilacerar os teus mistérios,
Que me transluzem sonhos em torpor?

É muito tarde, meu amor impuro.
O sol já ilumina os cemitérios.
Voltarei amanhã, me crê, eu juro.

sábado, 6 de agosto de 2011

Delasnieve Daspet

Quando os olhos secam...












Quando os olhos secam
É porque já chegamos a um lugar
além das lágrimas.

Um espaço desolado e silencioso
Onde nada cresce
E os sonhos são abatidos
Por falta de sustento.

Sem perceber, alheia ao que me cerca,
cruzei o rio invisível...
E meus olhos e minha boca
Jazem, cheios de pó, no incomensurável.

Perdi as lágrimas, perdi o conforto.
Apenas o vazio
Há séculos recordo e ouço.

(Poema enviado por email pela autora)

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Provocações - Abujamra declama Rubens Jardim




Toda mulher é...

© Rubens Jardim

Toda mulher é uma viagem
ao desconhecido. Igual poesia
avessa ao verso e à trucagem,
mulher é iniciação do dia,

promessa, surpresa, miragem.
De nada adiantam mapas, guias,
cenas ensaiadas ou pilhagens.
Controverso ser, mulher é via

de mão única, abismo, moagem.
É também risco máximo, magia,
caminho íngreme na paisagem.

Simplificando: mulher é linguagem,
palavra nova, imagem que anistia
o ser, o vir-a-ser e outras bobagens

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Elza Fraga

O murmurar do silêncio













 Elza Fraga

...


Sem palavras,
todas fugiram.
Calar é ouvir o silêncio

esse eu recomendo
diariamente
noturnamente.

Então não se espantem comigo
se emudeci o canto,
e abri as comportas do pranto

A alma seca a luz
como se pendurada
em cruz

perdida

num varal
qualquer da vida



(Elza Fraga)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Nathan de Castro


Soneto de Agosto

 

© Nathan de Castro


Eu tanto amei, e amei, perdidamente,
que me perdi nas lágrimas de agosto
e todo azar do mundo me fez crente
do verso feito às luzes do desgosto.

Eu tanto amei, e amei com todo o gosto!
Bebi do olhar do beijo reluzente,
me deparei com os traços do teu rosto
e me encantei poeta, triste e ausente.

Perdido e usando a máscara do tempo,
vaguei de pedra, ousando outro elemento,
para aprender o inverno da paixão...

Nada aprendi, e agora o passatempo
de rabiscar nas páginas do tempo
é o que ainda pulsa e afaga o coração.


(Soneto publicado com a autorização do autor)