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sábado, 15 de junho de 2013

Samuca Santos partiu, mas nos deixou (dez)ilusões...


(dez)ilusões











Samuca Santos
(*09/06/1960 +06/06/2013)

não quero a menina
não saberia o que fazer com ela
também não sei onde foi se esconder
nos corredores de outrora
tenho certeza que não

queria a promessa dos seios
no corpinho leve
a boca que não sabia beijar
e toda a precocidade do pensamento
em formação
: a menina tinha atitude
e era tudo o que eu quis

mas também não sei se quero
a mulher com seus problemas
adultos, somos absurdos
e não nos encontraremos nunca

(república de olinda, 01/03/2011)

 (Poema enviado por Cicero Melo)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Poema de Théo Drummond

CUIDADO

THÉO DRUMMOND

(Img: Márcia Sanchez Luz)










CUIDADO, MEU PENSAMENTO,
SOU COMO A ÁRVORE SIM,
E O TEMPO PARECE O VENTO
QUE TEM O DESTINO RUIM
DE SEPARAR O QUE TENTO
CONSERVAR JUNTO DE MIM:
- AS FOLHAS QUE NUM MOMENTO
VÃO TER, NA QUEDA, O SEU FIM.

QUANDO CAIREM NO CHÃO

segunda-feira, 21 de maio de 2012

DILEMA

Marco Bastos


Riacho na sombra - Courbet















Eu trago nesse canto em pauta, por dilema
sofrido pensamento à beira dum riacho
com tocha que se acende em rochas sem poema
perdido em meu conflito aflito onde me acho.

Se encontro em desencontro a trama do problema
começo e já reparto a questão de alto a baixo
divido bem o todo em partes-teorema
e são coisas que igualo a causas que não encaixo.

Sinto a dualidade e a vida se bifurca
em cada encruzilhada à frente do caminho
- no canto do meu fado a vida quer mazurca.

À margem do riacho ao olhar redemoinho,
a voragem que cega à noite me conspurca
querendo alinhar água e água é desalinho.


 


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Imprecisões

Luiz Eduardo Caminha


Reminiscência arqueológica, Salvador Dalí


Quem sou eu,
este ser inerme,
que faz da voz,
arma contusa?

Quem sou eu,
este ser inerte,
que mexe, remexe,
látego impiedoso?

Quem sou, afinal,
este ser sereno,
que num ímpeto se faz,
irascível mordaz?

Oh, cruel, inominado e controverso ser,
Verso, reverso, homo erraticus et perdidit!

Acaso uma criatura?
Erro da Criação,
insigne animal,
pedestal de areia?

Quiçá um dia,
de tanto me procurar,
alcance, almejo,
lugar pra descansar.

Desta busca infindável,
deste contínuo rebuscar.
Neste dia, quiçá, porvir,
Deus se ponha a me perdoar.






sexta-feira, 27 de abril de 2012

EVOLUTION - poema de Caio Martins

EVOLUTION

© Caio Martins


(Img: Explosão nuclear - web)



















Já podemos explodir
- dizem os jornais -
o planeta centenas de vezes,
- Que coisa!... uma só seria demais...

Ao léu pasta o gado
ao matadouro
pasta o gado...

O poeta é um saltimbanco
o poema é um vagabundo
que pode um verso inútil
contra um míssil nuclear?
A bomba de nêutrons
derreterá a arte
ninguém dá parte
e pelas avenidas se entulham
androides enlatados
em conserva, entalados
cuja sobrevivência é um vício
cuja inconsciência é um ofício.

Ao léu pasta o gado
ao matadouro
pasta o gado...

No espaço sideral há brilhos
sinistros de metais
enquanto a vida abaixo escorre
condenada
desenfreada
por trilhos virtuais.

Ao léu pasta o gado
ao matadouro
pasta o gado...

No limite do planeta
os limites por um triz
a liberdade ancilosada
é velha locomotiva a vapor
se decompondo nas pradarias
enquanto em órbitas, estelares
espaciais engenhos reluzentes
se (de)codificam, frenéticos
sobre os destinos do planeta
e seus piolhos patéticos...

Ao léu pasta o gado
ao matadouro
pasta o gado...

(26/06/1987 - Pensão da Zulmira)


(Poema publicado com a autorização do autor)



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

POEMA



© Rogel Samuel


Não posso reter os teus traços
Nem as notas de teu tema
Pois tua música se esquece
Como as vozes do poema
Da paixão, que mais um traço
Foi do azul de minha pena,
E quando te vir já será garço
O repique da tua cena
e o afastado abraço...
(oriunda onda a que cerca de aço
me levarão tuas algemas?)


(Poema publicado com a autorização do autor)

domingo, 4 de dezembro de 2011

FILHOS NOSSOS

Cicero Melo



(img: Wassily Kandinsky)


Os filhos amadurecem os pais.
Amadurecem,
amadurecem,
até que os apodrecem.

(Publicado com a autorização do autor)

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Samuca Santos
















RECIPHOTO


meus olhos hasselblad
dignificam esta cidade
mais que o surpreendente
cor de telha, nuvens chumbo
entre os dentes da manhã

meus olhos rolleyflex
emprestam romances de bossa nova
sussurradas as vozes ainda
dos camelôs operários e vagabundos
policiais sonolentos
prostitutas arrasadas

meus olhos japoneses, digitais
filtram a miséria
passam pelo photoshop
e agradeço à maré cheia
que esconde a lama
e mostra o mangue

meus olhos polaroid
de instantâneos efêmeros
enquadram barracas de frutas
e nem penso mais
nesta cidade de filhos da puta


Fonte: Interpoética

sábado, 6 de agosto de 2011

Delasnieve Daspet

Quando os olhos secam...












Quando os olhos secam
É porque já chegamos a um lugar
além das lágrimas.

Um espaço desolado e silencioso
Onde nada cresce
E os sonhos são abatidos
Por falta de sustento.

Sem perceber, alheia ao que me cerca,
cruzei o rio invisível...
E meus olhos e minha boca
Jazem, cheios de pó, no incomensurável.

Perdi as lágrimas, perdi o conforto.
Apenas o vazio
Há séculos recordo e ouço.

(Poema enviado por email pela autora)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Elza Fraga

O murmurar do silêncio













 Elza Fraga

...


Sem palavras,
todas fugiram.
Calar é ouvir o silêncio

esse eu recomendo
diariamente
noturnamente.

Então não se espantem comigo
se emudeci o canto,
e abri as comportas do pranto

A alma seca a luz
como se pendurada
em cruz

perdida

num varal
qualquer da vida



(Elza Fraga)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Rizolete Fernandes

INCLEMÊNCIA
Rizolete Fernandes













Img: Christian Coigny - Women Outside_09


Inda pensada
a dor
é ferroada

Quando sorrateira
se instala
gota em gota
vira enxurrada

Se de repente
aguda inteira
fica
sendo passageira

A dor
faz inclemente
quem a sente

terça-feira, 26 de julho de 2011

Graça Graúna

A CAMINHO DO HAITI TEM UMA PEDRA (*)














Graça Graúna


tem uma jangada de pedra
a caminho do Haiti
a esperança se avizinha
pois navegar é preciso
ou como diz o velho Mago
uma obrigação todos temos.
E agora, que fazer?
A caminho tem uma pedra
e uma jangada se recria
pois não há mais tempo a perder
________

(*) Fiz este poema, pensando em Carlos Drummond de Andrade, autor do poema “No meio do caminho” e empreguei o termo Mago para homenagear SaraMAGO e a sua solidariedade ao povo do Haiti.

Fonte: Blocos Online

domingo, 24 de julho de 2011

Solano Trindade

Negra bonita












Solano Trindade
24.07.1908 - 19.02.1974



Negra bonita de vestido azul e branco
Sentada num banco de segunda de trem
Negra bonita o que é que você tem?
Com a cara tão triste não sorri pra ninguém?

Negra bonita
É seu amor que não veio
Quem sabe se ainda vem
Quem sabe perdeu o trem
Negra bonita não fique triste não
Se seu amor não vier
Quem sabe se outro vem
Quando se perde um amor
Logo se encontra cem
Você uma negra bonita
Logo encontra outro bem.

Quem sabe se eu sirvo
Para ser o seu amor
Salvo se você não gosta
De gente da sua cor
Mas se gosta eu sou o tal
Que não perde pra ninguém
Sou o tipo ideal
Pra quem ficou sem o bem...

terça-feira, 5 de julho de 2011

RÉQUIEM GRANÍTICO

Caio Martins


The Dream - Inga Nielsen


















Menina vadia
brincando de pedra
cadê tua impudícia
teu jeito de cio?

A pedra é inútil
a pedra é amorfa
a pedra é tão fria
a pedra é estática
a pedra errática
tem oclusões vaginais
tem pedrinha hepática
por beber sonhos demais.

Quer ser celebridade
quer invadir a cidade
nua nos jornais...

A pedra quer ser escultura
a pedra quer ser pintura
a pedra quer ser partitura
quer ser imagem de santa
beijada no pé, num altar
quer ser a heroína
da hecatombe universal.

No meio da vida
nua se viu
no meio do peito
da cama do poeta...

... e armou o capeta.

Vai ver que de tanto
brincar que era pedra
no enleio do ato
chutou o amor
que virou, de repente,
pedrinha miúda
num pé de sapato...

(Vila Mirim, 01/12/1966 - Pensão da Zulmira, 14/06/1987.)

domingo, 12 de junho de 2011

Fernando Pessoa - O Amor

O Amor

Fernando Pessoa
13.06.1888 – 17.03.1925

O amor, quando se revela,
não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
se pudesse ouvir o olhar,
e se um olhar lhe bastasse
pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
quem quer dizer quanto sente
fica sem alma nem fala,
fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
o que não lhe ouso contar,
já não terei que falar-lhe
porque lhe estou a falar...

(In "Poesias Inéditas")

domingo, 29 de maio de 2011

Lareira Acesa


Img: Google











 

Em frente à lareira acesa
contemplo o fogo que aquece
e que em brasa, a madeira
meu amor transparece.

Meu coração não te esquece,
não te perde quando sonha!
Enlouquece, entontece,
fica aceso feito chama!

Feito fogo em álcool embebe
fico afoita, doida, rouca!
Desejo-te, tonta e pronta,
te apercebes, me recebes.

Defronte à lareira acesa
aqueço meus sentimentos!
Meus pensamentos se aquietam...
Aquieto-me frente à beleza
que me convida a sonhar...
Com sua chama
com sua calma
acalma meus medos
alerta-me
fita-me
incita-me
faz-me sorrir.


© Márcia Sanchez Luz

* Do livro "No Verde dos Teus Olhos"

quarta-feira, 30 de março de 2011

Aniversário de Thiago de Mello


Canto do meu canto

 




















Thiago de Mello



Escrevi no chão do outrora
e agora me reconheço:
pelas minhas cercanias
passeio, mal me freqüento.
Mas pelo pouco que sei
de mim, de tudo que fiz,
posso me ter por contente,
cheguei a servir à vida,
me valendo das palavras.
Mas dito seja, de uma vez por todas,
que nada faço por literatura,
que nada tenho a ver com a história,
mesmo concisa, das letras brasileiras.
Meu compromisso é com a vida do homem,
a quem trato de servir
com a arte do poema. Sei que a poesia
é um dom, nasceu comigo.
Assim trabalho o meu verso,
com buril, plaina, sintaxe.
Não basta ser bom de ofício.
Sem amor não se faz arte.


Trabalho que nem um mouro,
estou sempre começando.
Tudo dou, de ombros e braços,
e muito de coração,
na sombra da antemanhã,
empurrando o batelão
para o destino das águas.
(O barco vai no banzeiro,
meu destino no porão.)


Nada criei de novo.
Nada acrescentei às formas
tradicionais do verso.
Quem sou eu para criar coisas novas,
pôr no meu verso, Deus me livre, uma
invenção.


Poema extraído do site “Jornal de Poesia”, de Soares Feitosa.

sábado, 4 de setembro de 2010

Dose Certa


Antonio Manoel Abreu Sardenberg


Na dose certa todo amor é terno,
Faltando afeto ele se torna fraco,
Quando é escravo vira um inferno,
Se é rotina passa a ser um caco!

Na dose certa todo amor é pleno,
Se não é tudo, então é quase nada,
É gota d’ água vinda do sereno
No finalzinho de uma madrugada.

Na dose certa o amor é vida,
É o alimento que impulsiona o mundo,
É o oásis que nos dá guarida
O sentimento que nos cala fundo.

Na dose certa parece um gigante
Que a cada instante cresce mais e mais,
Não pára nunca, vai sempre adiante,
O amor assim é troço bom demais.


(Poema publicado com a autorização do autor)

domingo, 25 de julho de 2010

Remendos

Comemorando o Dia Nacional do Escritor


Noturno - Joan Miró


Muitos são pequenos excertos
de grandes paixões
de poemas que falam
o que minha boca cala.

Muitos são pequenos remendos
de poucos retalhos
que consegui obter
a duras penas.

Poucos são grandes acertos
que me dispus a contar
nas noites de insônia
nos dias chuvosos
nublados
turvos
frios.


© Márcia Sanchez Luz


domingo, 2 de maio de 2010

Eclosão


El Giro - Leonid Afremov

Nessa estrela vou pousar
de bailarina:
da cortina de teu palco
vou surgir
enfeitando o filme antigo
que fascina
tua lembrança, lamparina
a emergir.

© Márcia Sanchez Luz